Miguel Pereira
Sempre disse que tenho muito orgulho em ser português, apenas não tenho, porém, orgulho dos portugueses e da forma como funcionam as instituições no nosso país. Infelizmente, nos últimos tempos, tenho cada vez mais certezas daquilo que afirmo.
Na última sexta-feira, dirigi-me ao aeroporto para ir buscar a minha mãe, que vem cá alguns dias para me fazer companhia. Tudo parecia aparentemente normal: saí do trabalho, fui até às Amoreiras comer qualquer coisa e depois apanhei, a fim de me dirigir para o aeroporto, um autocarro que até dá uma grande volta por Lisboa, antes de chegar à Portela.
Enquanto estava naquele meio de transporte, quieto, no meu canto, a ouvir música no ipod, constatei novamente quão bela é a capital do nosso país. Do Parque Eduardo VII, passando pelo Arco do Cego e pela Avenida Gago Coutinho, é impossível não ficar fascinado com esta boémia alfacinha.
Após chegar ao destino, o aeroporto de Lisboa – ainda localizado na Portela – sabia à priori que tinha uma longa espera pela frente, mas nunca pensei que seria tão longa.
Desloquei-me logo para local das chegadas e sentei-me a ler, num daqueles sofás confortáveis lá presentes. Por volta das 22:30, a minha mãe liga-me a dizer que o avião estava atrasado, embora a TAP não tivesse dito nada.
Continuei sentado, calmo e sereno, a adiantar leitura de a Sangue Frio, de Truman Capote, até às 00:35, altura em que o ecrã indicou que o avião já havia aterrado.
Levanto-me do confortável sofá, desloco-me para o local da saída dos passageiro, quando recebo uma chamada do meu irmão, adepto do Benfica e do Nacional, a dizer que o atraso se “devia à grande equipa que tinha ido jogar ao Estádio da Madeira”.
Minutos depois, constatei que tal a história era verdade, pois a comitiva do S.L. Benfica, que tinha ido à inauguração do Complexo Desporto do C.D. Nacional, saía rumo ao autocarro do clube.
Ainda alguns minutos depois – porque a plebe tem de esperar pelas malas – chega a minha mãe a confirmar que tinha viajado com a equipa encarnada, o que causou grande euforia nuns passageiros e frustração noutros. Sim, sim, frustração, uma vez que o avião atrasou uma hora trinta minutos por causa do S.L. Benfica. O que acaba por ser ainda mais parvo é ninguém da TAP informar os passageiros a razão do atraso e quando a hospedeira ia pedir desculpa, de modo a explicar o porquê da demora, a chamada foi, curiosamente, abaixo. Engraçado, não é?
Fiquei a perguntar-me, de queixo caído, como é possível uma colectividade reservar um voo para às 21:45, hora em que acabava o jogo que opunha o Nacional ao Benfica, e como é que a mais emblemática companhia aérea portuguesa aceitou que o clube da Luz fizesse a reserva para aquela hora? Ah, desculpem, esqueci-me que estamos em Portugal, um país onde os interesses e as cunhas prevalecem à ordem natural das coisas. Enfim, Portugal no seu melhor.
*Sub-director